Um corpo em movimento

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Foto de travessia Ilhabela-Bracuhy no veleiro Petit Prince

Estávamos eu, três primos e meu tio a bordo do veleiro Domani, navegando rumo à Parati próximo à costa cerca de duas milhas náuticas (quatro quilômetros) e com tempo fechado.
Todos estavam no cockpit, de onde se controla o barco de todas as maneiras, leme, velas e motor, até que começou a chover e para minha sorte, era minha vez no leme e todos desceram para a cabine. Sempre fazíamos turnos no comando do barco, principalmente durante a noite, quando nos revezávamos a cada quatro horas em duplas, para evitar que uma pessoa sozinha ficasse com sono, então havia muita conversa para que não dormíssemos e o barco ficasse sem governo. Mas naquele momento ninguém estava dormindo, era perto de meio dia e eu estava no leme só, assistindo pela entrada da cabine à minha frente o povo todo se deliciando de miojos. A princípio fiquei furioso com as provocações e brincadeiras, mas me concentrei no que estava fazendo, pois quando chove a visibilidade se reduz muito, as vezes a poucos metros a frente. Nesse momento em que me entreguei ao comando do barco e a situação, comecei a sentir que estava me conectando e me veio uma tranquilidade incrível, a chuva parou de incomodar, a fome que nem era tanta foi esquecida e eu comecei a admirar aquele momento que era só meu, como se eu estivesse sozinho comandando aquele enorme veleiro por dentro da chuva sem ver terra a vista, tendo como direção um número a ser lido na bússola a minha frente. A posição em que eu me encontrava favoreceu esse sentimento também, como este veleiro tinha roda de leme, era possível e mais prático conduzi-lo em pé, me dando a sensação de ser um passageiro com as mãos apoiadas no timão, apreciando as particularidades do mar recebendo a chuva como em um camarote especial.
As vezes é difícil entrar em contato com o que está ao nosso redor, muitas coisas nos chamam a atenção e raramente são as coisas importantes, essas geralmente passam sem percebermos. A vida deveria ser um caminho repleto de sentimentos e nós os banalizamos e esquecemos, mas no fim das contas, é isso que importa de verdade.
Se não nos importarmos de sentir o que nos rodeia, seremos capazes de interagir de alguma forma, assim como naquela situação, em cada lugar que vamos existe esta possibilidade e é disso que se forma um corpo vivo, que está em constante transformação e sempre transformando onde passa.

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