A PRAIA DO BONETE

Um lugar lindo, cheio de vida, beleza e história.

Eu estive no Bonete faz aproximadamente 18 anos, quando meu tio resolveu juntar a família a bordo do veleiro dele, um mod 40 pés chamado Domani e fomos todos para a praia que recebeu há muitos anos o nome da nossa família, hoje alterado pelo costume local.

Desde que estive la de barco, acompanhei por ocasiões relatos de pessoas que iam a pé, de jipe (vi uma vez na televisão), em canoas dos pescadores e habitantes da praia e sempre pensei quando eu voltaria.

Bem, foi desta vez que voltei e foi uma grata surpresa, eu me lembrava do rio do lado direito da praia, das ondas fortes que dificultavam o desembarque, mas não tinha conhecido a comunidade naquela ocasião e mesmo se o tivesse feito, não teria a capacidade de entender aquela vida como hoje eu consigo ver.

Cheguei ao anoitecer no Bonete, comecei a trilha as 16:00, depois de sair da obra, pagar contas no banco em São Sebastião, almoçar, passar a balsa e percorrer os vinte e poucos quilômetros de estrada, parte asfaltada e parte em terra, porém toda ela em ótimo estado, cheguei ao início da trilha, que na verdade seria uma continuação da estrada mas a partir dali o acesso é restrito. Nesse trecho há uma porteira de madeira e logo ao lado há uma propriedade que cobra R$15,00 para estacionar o carro, onde eu estacionei.

Fiquei surpreso ao saber que eu fizera um tempo considerado excelente, dado que eu carregava cerca de 18 quilos nas costas, a trilha toda foi percorrida em quatro horas.

Quando cheguei fiquei encantado com o tamanho da faixa de areia e a beleza do anoitecer alaranjado, mas um pouco preocupado com muitos cães de tamanho considerável na praia, que latiam de longe e eu não via donos deles nem ninguém que pudesse me socorrer em caso de ataque, parecia um deserto maravilhoso.

Pensei “e agora?” Já era noite, eu sempre tive cachorro e sei do que eles são capazes, então fiquei com meus bastões de caminhada a postos e fui atravessando a areia próximo as árvores, longe da água. Quase no meio da praia eu vi uma lanterna, era um rapaz para quem os cães latiam, mas ele não deu bola e tudo bem, isso me deu segurança para ignorar os latidos e me aproximei dele perguntando por um camping, ele simpaticamente e um pouco desconfiado me indicou um caminho parecendo ser muito óbvio onde ir e eu segui o que ele disse, chegando ao Camping do Sr. Eugênio.

Muito cansado, querendo comer e dormir, afinal eu tinha acelerado o passo para chegar ao destino antes de escurecer, comecei os preparativos todos na vista atenta do neto do Sr. Eugênio, o Erik. Aos seis anos de idade ele mostrava uma curiosidade imensa em tudo que eu fazia e eu alimentei essa curiosidade lhe dando atenção às suas perguntas, ele se encantou com minha barraca e meu fogareiro de algumas gramas desmontável, queria a todo custo me ajudar e mexer no equipamento como se estive vendo algo de tecnologia alienígena.

Uma criança incrível, ao mesmo tempo em que eu satisfazia sua curiosidade ele satisfazia a minha sobre o local e a vida lá, as crianças falam sem pudores ou limites e tudo que eu perguntava ele respondia sem pestanejar.

Eu fiquei imaginando cada coisa que ele me dizia, como seria a escola montada pela comunidade local, como fora a reunião e decisão de fazer reservatórios de água na montanha para coletar e tratar água dos rios para não ficarem sem água nas chuvas, ao mesmo tempo eu ouvia os geradores de energia sendo ligados e desligados, algumas pessoas andando nas vielas no escuro em total segurança e se cumprimentando como bons amigos, coisa que é estranho para alguém que vem da capital, onde escuro significa perigo.

Denórea e Eugênio

A comunidade local é praticamente uma vila independente do mundo, perdida no tempo vivendo na velocidade da vida sem impor necessidades nem objetivos, apenas vivendo.

O Sr, Eugênio veio conversar comigo na manhã seguinte, e o papo se estendeu por mais de uma hora, sua esposa a Sra. Denórea se juntou ao papo e fiquei surpreso em saber que é de conhecimento deles meu ancestral pirata que deu nome à praia

Francesco Claudio Bonetti, ele se escondia ali para saquear a rota Rio-Santos, claro que naquela época ninguém vivia ali, o que nos fez estimar a idade daquela comunidade. O Sr, Eugênio me disse que sua mãe que faleceu com 100 anos nasceu ali e pelas minhas contas meu ancestral seria cinco gerações acima de meu avô, que teria hoje 91 anos, então se fizermos uma média de 25 anos por geração (imaginando que cada ancestral teria filho com 25 anos) multiplicada por cinco, 125 mais os 90 de meu avô 215, arredondamos para 200 anos no máximo, mas estimamos próximo de 150 anos.

Foi engraçado fazermos toda essa conta e em seguida ele me disse “essa praia é sua então?” Eu ri e disse que de maneira alguma, mesmo o Francesco Bonetti só estava ali para se esconder, que não era seu lar.

Já o Sr. Eugênio era outra história interessantíssima, trabalhou em barcos de pesca por 12 anos, passando semanas a bordo pela costa entre Santos e Rio de Janeiro, ironicamente a rota que era assaltada pelo meu ilustre familiar, um dia ele se cansou e resolveu voltar para o local onde sua mãe passou a vida toda e se fixou no Bonete, provavelmente no terreno que fora de sua mãe eu imagino, onde já vive há quatro anos.

Com vontade de ficar por ali para sempre, eu sabia que tinha que voltar para minha vida e comecei a empacotar as coisas, quando sai o Sr, Eugênio ficou quase sem graça em me cobrar a estadia em seu camping, um sujeito muito bacana.

Passei por toda a praia a caminho da trilha e presenciei alguns aspectos da vida ali muito bacanas, uma pedra no mar, próximo ao rio, mas já a uma distancia onde não da pé, muitos garotos se reúnem e brincam contra as ondas, testando quem é último a ser carregado pelas ondas que nela estouram, na areia alguns homens preparavam redes para a pesca enquanto admiravam o mar e dois ou três turistas aventureiros surfavam as belas ondas.

Na trilha de volta já com tempo de sobra, mas não tanto, pude apreciar as três belas cachoeiras por onde passei seguindo a trilha que foram também escolhidas para parada de lanche e descanso.

Espero voltar a esse local em breve, apaixonar-se pelo Bonete é garantia de quem visita.

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